Funcionário público modelo? Creio que não e ainda aponto o emprego do termo como mera idealização barata… Em três anos no funcionalismo estadual, me deparei com a experiência mais chocante da carreira (pelo menos na área da saúde e como não-médico), ao assumir uma das vagas do setor de registro (atendimento ao público) do HPS Dr. João Lúcio Pereira Machado, em setembro de 2008.
Nesta visão do serviço público de saúde do Amazonas, a idéia é dar foco à população, no que se refere a comportamento, tomando como base as funções dos estabelecimentos conforme a classificação dos órgãos responsáveis. Uma crítica não feita sob o olhar do jornalista ou do funcionário público, mas do paciente em potencial.
Lotação esgotada e noção de humanidade: Responsabilidade do Governo? Sem dúvida. No entanto o que se encaixa nas funções de um Hospital Pronto Socorro (HPS) e de um SPA (Serviço de Pronto Atendimento)? Terá a população ciência total dos papéis que cada lugar exerce? Esta noite, me questionei bastante a respeito disso. Como trabalho das 19h às 7h, posso relatar que geralmente é um período mais tranqüilo, no qual o número de atendimentos cai consideravelmente.
Porém, na noite e madrugada passadas, o número de registros ultrapassou a casa dos 150 (quando o normal não chega à metade disso). Entre pacientes cardíacos, diabéticos, vítimas de arma de fogo e/ou arma branca, mais da metade procuraram (e procuram) o hospital alegando: dor de estômago, cabeça e mal estar (leia-se: sensação indefinível, mas ruim). Isto, sem falar os que chegam com dor nos olhos (oftalmologista) e dentes (odontologista).
Claro que somente um médico pode avaliar a gravidade de uma doença, mas, por definição, sintomas como estes não exigem serviço de urgência; pelo menos, não em princípio. Como um colega meu de plantão comentou, muitas dessas pessoas vêm ao pronto-socorro em busca de “din-din” — uma combinação de Dipirona ou Diclofenaco (analgésicos) –, medicam-se e seguem para as suas residências.
Enquanto isso, pacientes hipertensivos ou epilépticos disputam prioridade no atendimento (ainda sob protesto dos demais), temerosos de perder lugar na fila e a mercê dos sintomas de suas patologias. “Estou aqui desde as 19h e você quer chegar agora e passar na minha frente?”, indaga com as narinas obstruídas por ranho, um paciente gripado, ao ver, carregada pelos filhos, uma senhora de aproximadamente 50 anos, vítima de cálculo renal. Soa piegas? Talvez. Mas, é certo? Hum?
Apóio sim, a continuidade da expansão dos espaços hospitalares públicos, assim como a construção de outros, mais novos e modernos. Contudo, vejo como indispensável, a promoção de campanhas de conscientização e humanização da sociedade em geral, e não apenas dos funcionários públicos e médicos. Afinal de contas, todos constituímos uma ordem social baseada na educação, onde o mínimo a se fazer é pô-la em prática.
Escrito ao som de: Travis, Radiohead e John Mayer.
Comentários